
Preciso conseguir acalmar minha pulsação. Encontro-me longe de mim sem a menor pretensão de ter um destino. Só preciso me deslocar, sair do lugar. Meu corpo não me obedece quando minha cabeça está longe. Escrever para mim não é como uma arte, é como respirar. No instante que me vivifico em palavras solto de mim todas as angústias que me fez deslocar-me propositalmente para dentro do infinito. De um infinito finito, em mim. Preciso conseguir controlar minha ansiedade. Não é fácil domar pensamentos, é uma sensação de êxtase constante. Não tem como meus pensamentos duvidarem, do que está saindo por meus poros. Mãos trêmulas neste instante e uma imagem visual perfeita mesmo com os olhos fechados me fazem levantar os pés do chão. Tão imediato e apenas um contato. Apenas um contato.
Também não consigo mais montar meu mosaico, está tudo disperso e vivo. Torna-se instintivo tentar achar o realismo disso tudo que corre em mim. Só quando durmo consigo realizar-me. Tentei achar a realidade muitos dias e a encontrei seca e árida. Parece que é justamente quando me proponho a realizar-me, que meus pensamentos se desconectam de mim. Me assusta o caos completo. Sinto que minha respiração continua ofegante. Que tem um grande balão inflável dentro de mim, como os peixes que respiram pela boca, mas não tenho traquéias, só me inflamo de ar. Longe de mim.
Abomino a paixão, pois ela me consome. Não sei controlar. Levo-me em tambores pelo som que traz o vento, me desconcentro, fico impulsivo, danço, saio com roupa do lado contrário pela rua, me vejo em coisas, fumo e bebo demais. É uma questão de força, de domínio, de fuga como correr e tomar banho de chuva. Fico arrebatado. Penso ser a paixão a causa de minha imensidão e enclausulamento. Não temo sentir. Quando sinto, sinto forte. Escrever é poder tirar isso de mim. É poder gritar em palavras que ecoam pro universo. É um prazer ter saudade, acordar suado, de tanta intensidade.
A primavera esta chegando, tem flores vindo, tem cheiro de transformação. Me orgulho de sentir quando algo está entrando em mim e saber que isso vai me transformar. Me orgulho de sentir dor exacerbada, isso gera vida. O processo dói. É até onde posso me esticar sem ter que explicar em palavras coerentes como consigo respirar sem traquéias. Não consigo me esforçar para escrever, tenho que fazer isso. E o sangue agradece, se não apodrece e fica aqui, neste corpo, coagulado.
Ainda tenho coisas a dizer, para que ninguém me ouça. Para que tudo continue girando. Para que meu coração se fortaleça e deseje mais o que tiver que desejar. Se minha inspiração não vem de ninguém também não vai para ninguém, não estou inspirado em função de nada, não é para ter direção. O sentir é um ciclo, é uma bolha que infla e que desinfla. Somos como aves e peixes, podemos respirar pra dentro e voar pra fora. Somos únicos e flagelados pela paixão. Homens e Mulheres podem sentir as fortes batidas juntos ou separados, como disse, não tem direção. É circular. É maravilhoso que as coisas não dependam de mim.
Escrevo porque é intrínseco a mim.Tenho sonhos como qualquer bicho, mas se eles não acontecem, busco me libertar e ser maior. O instinto é surreal e vivo. Agora, neste instante, entro em contato com uma nova sensação que vem atrás do pensamento que faz com que a realidade não seja descrita, ela não existe agora. Ela viaja enquanto eu fico e quando eu vou é porque ela me leva. Isso que escrevo agora, não tem começo, é mesmo continuação do que já fui e do que não serei.
Estou cansado de me defender, consegui atingir o meu âmago, não preciso me esconder de nada, se alguma coisa tem que ser cruel comigo, que venha de mim. A maior sensação de alívio é quando dói e sabe-se que a dor é justa. O processo é cíclico.E como não me entregar a esse instante? Eu me entrego à palavra que chega me levando. Toda vontade vira dádiva e me permito, porque tem coisas que vão continuar comigo, meus pensamentos duvidosos e altruístas, nem tudo vou colocar em palavras, minha existência se faz de minha experiência, mesmo que eu não seja senhor de mim.O que faço agora é tentar misturar palavras para que o tempo se faça. O que eu digo deve ser lido rapidamente, como o que se olha e não se fixa. Nada está fixado em mim.

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